Kut's trip

Poland

POLAND | Friday, 25 April 2008 | Views [221]

   

02/04: Depois de uma longa viagem de trem, na qual eu usei a minha mala e a da Regina também para tentar fazer uma cama mais larga, chegamos ao Flamingo Hostel e tivemos um maravilhoso café da manhã (entre os incluídos, o melhor de longe). Compramos ingressos para Auschwitz e Wieliczka Salt Mine e fomos andar pelo Kazimierz, o bairro judaico. Antigamente, era uma cidade separada, onde judeus e cristãos conviviam. Foi totalmente reconstruído no fim do séc. XIX, começo do séc. XX. Na Remuh Synagogue, encontrei o filho do Sr. Lieben, um dos últimos sobreviventes do Holocausto que trabalhou na fábrica do Schindler (uma na Tchecoslováquia, não a de Cracóvia). O Sr. Lieben morreu há um ou dois anos. Lá também fica o Old Cemetery. O bairro é bem legal e hoje tem artistas morando por lá e muitos bares, além de lugares judaicos. A Isaac Synanogue (séc. XVII) está no processo de voltar a funcionar. Ela tem umas pinturas nas paredes (espécie de afresco) que foram restauradas e é super bonita. Depois, fui na Stara Synagogue (séc. XV), a mais antiga da Polônia. Hoje é um museu sobre os costumes judaicos. Tinha também uma exposição sobre o Kazimierz, contanto que a cidade foi um presente do rei no séc. XIV. Depois de passear por lá, fomos ao gueto (Podgórze), que fica do outro lado do Wisla River. Fomos à fábrica do Schindler (que está reformando, mas mantém a fachada e o nome) na ul. Lipowa. Passamos também pela Plac Zgody, hoje Bohatérow Getta, praça de onde os judeus eram mandados para Auschwitz e Belzec. Num dos cantos da praça fica a Apteka Pod Orlem, farmácia de um cara que não era judeu, mas convenceu os alemães a deixá-lo ali depois da criação do gueto. Ele ajudou a contrabandear remédios, comida etc. Era também um ponto de encontro dos intelectuais. Hoje, é um pequeno museu contando bastante sobre o gueto. Valeu muito a pena. Saímos de lá e fomos pela ul. Lwowska, onde ainda há um pedaço do muro original do gueto (com flores no chão junto ao muro). Depois, partimos numa longa e dura caminhada para Plaszow, um campo de trabalho forçado e, depois, concentração. Não achamos edifícios, mas havia monumentos e deu pra ver de onde se extraia o minério. Além disso, havia placas falando sobre o campo. Na volta, a Regina e o Jouni foram para a praça central e eu voltei para o Kazimierz, onde fui às outras sinagogas: Tempel (moura) e Popper (hoje, parecia ser um estúdio de arte, mas preserva a fachada). Dei também uma espiada no Cemitério novo (já estava fechado), mas o mais legal foi o Galícia Jewish Museum. Ele conta a história do gueto como ênfase nos movimentos de resistência. Antes da Guerra, Cracóvia tinha cerca de 60 mil judeus. Hoje há algumas centenas. Na volta ao hostel, tomei um banho maravilhoso e fomos comer com o Neel (um inglês que estuda na LSE) num restaurante bom. Além da comida boa, tinha um cara tocando piano.


03/04: Fomos com um tour para Oświęcim, a cidade onde ficava o complexo de Auschwitz. Parece que os poloneses preferem continuar chamando pelo nome antigo e não por Auschwitz. No caminho vimos um documentário com cenas originais dos soviéticos chegando ao campo. A visão é terrível. Na época, eles gravaram uma versão alternativa com os soviéticos chegando e os sobreviventes tentando derrubar o portão. Quando os soviéticos derrubam o portão, vários sobreviventes os abraçam, sorridentes, felizes... O próprio cinegrafista oficial do Exército Vermelho diz que quando eles chegaram lá, os que tinham sobrevivido não tinham forças nem expressão alguma. Auschwitz I é hoje um museu com fotos e pertences daqueles que passaram por lá. Pode-se ver milhares de sapatos, óculos e até cabelos dos prisioneiros. Na única câmara de gás que sobrou ainda dá para sentir um cheiro ruim. É difícil de explicar, mas é um ambiente muito ruim. É bem difícil de assimilar que centenas de milhares de seus ascendentes foram assassinados ali. Auschwitz II, ou Birkenau, tem as instalações ruins de verdade, aquelas que vemos quando se fala no Holocausto. Câmaras de gás e crematórios foram todos destruídos, mas ainda está lá a plataforma onde os trens chegavam cheios de gente e era lá mesmo que era feita a seleção daqueles que estavam aptos a trabalhar e, portanto, sobreviveriam até se tornarem inaptos (não devia demorar muito, dadas as condições sanitárias e alimentícias). Auschwitz III, ou Monowitz, fica um pouco mais afastado e servia de moradia pra prisioneiros que eram mão-de-obra escrava para fábricas (geralmente ligadas ao esforço de guerra alemão). Não cheguei a ir lá, mas não sobrou nenhum prédio. Pela tarde, fomos à Mina de Sal de Wieliczka. Há inúmeras galerias e os próprios mineradores esculpiam no sal (e continuam esculpindo). Algumas galerias são realmente impressionantes.

· 04/04: Fomos à estação comprar passagens (eu só comprei reserva porque já tinha o passe de trem) para Varsóvia. Eu resolvi que iria para Lublin, onde está Majdanek, um outro campo de concentração, enquanto eles iriam diretamente para Varsóvia. Na volta passamos pelo Barbakan (Muralha) na ul. Florianska e tinha um cara tocando Violinista no Telhado num acordeão (acho que é esse o nome do instrumento). Depois, fomos ao Wawel Castle e visitamos vários aposentos. O castelo é bonito, mas acho que cansei de ver castelos. O original é do séc. X, mas ele foi reconstruído várias vezes e a construção que ainda está de pé é do séc. XVI. No começo da tarde, o Jouni e a Regina foram para Varsóvia e eu fiquei por lá. Andei nas margens do Wisla e tive uma vista legal da colina do castelo. Foi bem agradável andar ao longo do rio. Passei na frente da igreja St. Francis e havia muitas velas (acho que era em homenagem ao aniversário de falecimento do Papa). É bem evidente como o Papa João Paulo II virou um herói nacional. Eu não vi nenhuma referência ao Bento XVI, mas é possível ver fotos do João Paulo II a cada esquina. Ainda passeei pela praça e mercado centrais e Collegium Maius, onde Copérnico estudou. Depois, voltei ao hostel e, como estava meio resfriado e cansado, pedi uma cama na recepção e eles deixaram eu descansar umas horas, mesmo depois de ter feito check-out. O hostel lá foi muito bom mesmo. Só teve um downside: na segunda noite só tinha água gelada e na Polônia água gelada quer dizer água “inentrável”.

· 05/04: Meu trem de Cracóvia para Lublin saiu tarde da noite e tive que dividir cabine com mais uns caras. Além disso, tinha uma galera enchendo a cara e gritando. Parei em um cidade chamada Katowice a 1:30 da manhã e, como teria de esperar por uma hora ali, minha primeira idéia foi procurar uma sala de internet. Achei uma que pareceu bem boa. Quando estava quase entrando, vi pelo vidro um cara assistindo um filme pornô. No começo achei que não estava vendo direito. Tinha uns 20 computadores, um do lado do outro, e o cara, sem nenhum resquício de vergonha, assistindo a maior putaria. Desisti de usar a internet e sentei na plataforma de trem. Ainda consegui falar com minha família no celular. Foi bem melhor do que usar algum daqueles computadores. Depois dessa longa viagem de trem, cheguei a Lublin às 7:00. Resolvi dar uma deitadinha no parapeito da janela da estação para descansar por uma hora. Às 7:30 acordo sendo cutucado. Eram os guardas da estação falando que não podia dormir ali. Deixei meu mochilão no locker e peguei um ônibus para Majdanek (cerca de 4 km da cidade). Cheguei bem cedo e, ao contrário de Auschwitz, estava completamente vazio. Além disso, era uma manhã gelada e com neblina e o silêncio chegava a ser assustador. Andei sozinho pelo campo e pode-se entrar em algumas das construções, que hoje servem como museu. Lublin fica no leste da Polônia e foi uma das primeiras regiões conquistadas após o começo do avanço Soviético. Portanto, os nazistas não tiveram tempo de destruir grande parte do complexo. Entrei nas câmaras de gás e dessa vez a sensação foi ainda pior do que em Auschwitz. Além do silêncio sepulcral e da solidão, havia manchas azuis nas paredes, geradas com o uso do veneno Zyklon-B. Também se pode entrar em um crematório e veio uma pergunta na minha cabeça que é muito difícil de responder. “Quem conseguiria ser tão frio a ponto de colocar outra pessoa dentro de um forno?”. Quando eu penso que eram os próprios judeus que faziam isso fica ainda mais difícil. Por outro lado, era uma questão literalmente de vida ou morte. Em 3 de novembro de 1943, após revoltas e fugas em outros campos, os nazistas resolveram matar todos os judeus em Lublin. Eles metralharam 18 mil só nesse dia (sem contar a câmara de gás). Acho que no total foram 40 mil judeus nessa operação. Lá também há sapatos e outros pertences dos prisioneiros, inclusive cabelo, que era usado por fábricas nas redondezas para fazer tecido. Depois de um dia pesado (pelo cansaço e pelo programa), tive que ficar matando tempo até pegar um trem para Varsóvia no meio da tarde. Não achei nenhum lugar para entrar na internet. No trem, uma garota entrou na minha cabine e vi que ela tinha um livro em espanhol. Comecei a conversar e a Evelina é polonesa, mas fez intercâmbio na Argentina e, além de espanhol, também falava português. Ficamos batendo papo. Chegando a Varsóvia fui ao Orange Hostel, onde encontrei a Regina. O Jouni tinha saído com um amigo dele que é casado com uma polonesa (eles moram na Finlândia, mas o amigo estava lá). Tomei um dos melhores banhos da minha vida (depois de um bom tempo) e fomos a um restaurante chinês muito bom. Ele tinha todo o jeito de ser caro, mas comemos por uns 30 Zlotys (pouco menos que 10 euros). Caminhamos um pouco pelas largas avenidas e, apesar do ar comunista das avenidas, fiquei com uma boa impressão da cidade. Tinham me falado que não valia a pena ir pra Varsóvia, mas achei a cidade legal. A parte nova da cidade tem alguns prédios modernos, bem altos e todos iluminados. O shopping do lado da estação central de trem tem uma cobertura de vidro bem diferente, com uma forma bem irregular, que eu gostei. Mas aquilo que mais chama a atenção é o Pałac Kultury i Nauki (Palácio da Cultura e Ciência). Construído nos anos 1950, foi um presente da União Soviética para a Polônia e é um prédio enorme. Dá para vê-lo da maior parte da cidade. Parece que os moradores de Varsóvia não gostam muito dele. Eu achei legal, mas ele confere um ar meio opressor mesmo.

06/04: De manhã, eu e a Regina fomos à antiga prisão de presos políticos Pawiak. Foi usada pelos alemães durante a Guerra para prender todos que fossem suspeitos (de qualquer coisa). As estatísticas são terríveis: 100 mil presos, 37 mil morreram lá e 60 mil deportados para campos (os outros 3 mil devem ter desaparecido). Os presos tinham literalmente de 8 a 80 anos. Inclusive, há um caso de um menino de um ano que foi capturado como refém numa tentativa de prender os pais. Depois, seguimos uma rota de um guia que arranjamos por aqui. Passamos pelo Palácio (onde pudemos visitar alguns aposentos), cidade velha e principais monumentos. O Jouni nos encontrou após sairmos do Palácio. Ele tinha ficado dormindo depois de ter ido a um bar com o amigo. Paramos para almoçar no Sphinx (uma cadeia de restaurantes) e, de lá, fomos ao Lazienki Park (no caminho vimos o Ujazdowski Castle). O parque é bem legal. Há gente jogando futebol, vários esquilos que vêm comer na sua mão e tinha também uma pequena, mas bonita, exposição de fotos no Cazaquistão (não tenho certeza qual dos “...stão” que era). Lá vimos também o Palace on the Water, que também é bem bonito. Depois, tomamos um ônibus para Wilanów Park, mais um parque com palácio. No ônibus um velho polonês decidiu que queria falar conosco de qualquer jeito. A gente tentava de todas as maneiras explicar que não entendíamos nada, mas acabamos batendo um papo com ele. No fim, ele nos mostrou o caminho do parque. Lá assistimos a algo pelo menos inusitado: um casal de orientais (seguido por amigos, acredito eu) vestido de noivo e noiva. Não sei se era o casamento mesmo, mas havia fotógrafos acompanhando a galera. Na volta, fomos à estação comprar passagens para Berlim. Demoramos quarenta minutos para explicar para ela o quê queríamos. Os caras tiveram que abrir mais um guichê porque a fila começou a manifestar a insatisfação. Tudo isso porque meu passe de trem era válido só na Polônia. Por isso, eu queria usá-lo até a última cidade da Polônia (no sentido da Alemanha) e comprar uma passagem desta cidade até Berlim (porque essa viagem é mais curta e um pouco mais barata). Para ajudar, acho que era o primeiro dia de trabalho de vendedora também. Ela imprimiu uns quatro bilhetes até acertar.


07/04: Fomos ao Warsaw Uprising Musem, um daqueles bem novos, todo moderno, com filmes, sons e imagens. Ele conta sobre a resistência polonesa frente aos nazistas e também como Stalin não os ajudou (por sinal, depois Stalin prendeu os líderes do movimento porque não queria ter problemas com o seu governo). Lá perto fica o orfanato de Janus Korkacz. Ele era um educador e pedagogo que cuidava de crianças órfãs judias (apesar de não ser judeu) e quando os nazistas vieram para levá-las à Treblinka, Janus não as abandonou e morreu na câmara de gás com elas. Havia um grupo de americanas religiosas com uma espécie de guia contando a história dentro do quarto que é mantido como lembrança do orfanato de Janus. Tocou Forever Young do Bob Dylan. Bem triste. Me separei do Jouni e da Regina e fui ao cemitério judaico (acho que é usado desde meados do séc. XIX). É enorme. Lá há uma estátua de Janus e suas crianças na fila (para morrer). Há também um memorial às crianças assassinadas no Holocausto (um milhão). Vários grupos de jovens estavam visitando o cemitério. Escutei bastante hebraico. Vi uma lápide em homenagem aos combatentes do Gueto de Varsóvia. Depois do cemitério, segui a rota judaica do guia. Passei pela Stawik, a praça de onde 300 mil judeus foram deportados para Treblinka. Hoje, há um monumento ali. Segui caminhando pelas ruas do antigo gueto, onde ocorreram batalhas durante o Levante. Há várias lápides (acho que) simbólicas pelo caminho. Essa rota levou-me à rua Mila, no18, o antigo bunker onde os líderes do Levante do Gueto se suicidaram antes de serem capturados. Hoje há uma homenagem no lugar onde foi o bunker. Não há mais nada construído por lá. Lá perto tem uma praça, onde fica o Monumento aos Heróis do Gueto. Fui também à Nozyk Synagoga, a única que sobreviveu à Guerra (antes eram cerca de 400). Entre 1939 e 1945 ela foi um estábulo para os alemães. Lá eu reencontrei Jouni e Regina e passamos em frente a um teatro judaico. Fui à ul. Krochmalna porque minha mãe tinha lido um livro cujos personagens viviam nessa rua e ela era muito bem descrita. Não parece ter sobrado muita coisa daqueles tempos. Vimos também uns restos de muro do gueto (ficam dentro da área de um prédio). Antes de escurecer, fomos ao Palácio da Cultura e Ciência para ver se era possível subir. Era, mas era mais caro do que estávamos dispostos a pagar. Voltamos ao hostel e encontramos o Toby, um inglês que estuda Filosofia em Cambridge, com quem já havíamos cruzado no albergue em Cracóvia. Fomos jantar no Sphinx de novo (o mais barato que achamos). Foi legal que o Toby contou sobre os 8 meses que ele passou na Tanzânia voluntariando como professor de inglês. Depois passamos no hostel para pegar as malas e fomos à estação pegar o trem para Berlim.

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